Você Realmente Esqueceu ou Apenas Não Fez? O Que a Ciência Descobriu Sobre Nossas Falhas de Memória
Quantas vezes você já disse algo como:
"Eu esqueci de ligar para aquela pessoa."
"Esqueci de marcar a consulta."
"Esqueci de pagar a conta."
"Esqueci de responder aquela mensagem."
Mas será que você realmente esqueceu?
Uma pesquisa recente publicada na revista científica Cognitive Research: Principles and Implications trouxe uma descoberta surpreendente: na maioria das vezes, quando deixamos de realizar algo que planejamos fazer, o problema não está na memória.
A memória pode não ser a culpada
Os pesquisadores acompanharam mais de 100 adultos durante um mês. Todos os dias, os participantes registravam tarefas que pretendiam realizar no dia seguinte e, posteriormente, informavam se haviam cumprido ou não cada uma delas.
Quando uma tarefa não era realizada, os pesquisadores perguntavam o motivo.
O resultado foi inesperado.
Apenas cerca de 10% das tarefas não realizadas foram atribuídas ao esquecimento.
Isso significa que aproximadamente 9 em cada 10 falhas aconteceram por outros motivos.
Então por que não fazemos o que planejamos?
Os motivos mais comuns foram:
Mudança de prioridades;
Falta de tempo;
Cansaço;
Falta de motivação;
Problemas externos inesperados;
Questões de saúde.
Em outras palavras, muitas vezes lembramos perfeitamente do que deveria ser feito, mas simplesmente não conseguimos transformar a intenção em ação.
O que é memória prospectiva?
Os cientistas chamam de memória prospectiva a capacidade de lembrar de fazer algo no futuro.
Ela está presente quando você precisa:
Tomar um medicamento;
Comparecer a uma consulta;
Fazer uma ligação importante;
Pagar uma conta;
Comprar algo no mercado;
Enviar um documento.
Essa habilidade é fundamental para a autonomia e para a organização do dia a dia.
Quando falhamos, tendemos a concluir rapidamente que nossa memória está piorando.
Mas nem sempre essa interpretação está correta.
Nem toda falha é uma falha de memória
Imagine duas situações.
Situação 1
Você tinha uma consulta marcada para as 15 horas.
Ao chegar em casa às 18 horas, percebe que simplesmente esqueceu completamente da consulta.
Nesse caso houve uma falha de memória.
Situação 2
Você lembrou da consulta durante todo o dia, mas surgiu uma reunião urgente de trabalho e você decidiu remarcar.
Nesse caso a memória funcionou perfeitamente.
O que ocorreu foi uma mudança de prioridade.
Do ponto de vista comportamental, o resultado é o mesmo: a consulta não aconteceu.
Mas os mecanismos psicológicos envolvidos são completamente diferentes.
O papel das funções executivas
A descoberta do estudo reforça algo que a neuropsicologia já observa há muitos anos.
Grande parte das dificuldades do cotidiano está relacionada não apenas à memória, mas também às chamadas funções executivas.
Essas funções incluem:
Planejamento;
Organização;
Gerenciamento do tempo;
Controle de impulsos;
Definição de prioridades;
Persistência diante de tarefas difíceis.
Muitas vezes a pessoa afirma que possui uma memória ruim quando, na verdade, enfrenta dificuldades para organizar e executar seus planos.
As tarefas difíceis são mais abandonadas
Outro achado interessante foi que tarefas consideradas mais difíceis tinham maior probabilidade de não serem realizadas por motivos como falta de tempo, baixa motivação ou mudança de prioridades.
Isso sugere que algumas atividades não são esquecidas.
Elas são evitadas.
Quem nunca adiou uma ligação desconfortável, um exame médico ou o início de um projeto importante?
Nesses casos, o desafio pode estar mais relacionado à regulação emocional do que à memória propriamente dita.
Os lembretes ajudam, mas não resolvem tudo
Alarmes, agendas, aplicativos e calendários continuam sendo ferramentas extremamente úteis.
No entanto, o estudo mostrou que lembretes ajudam principalmente a reduzir o esquecimento.
Eles não eliminam outros obstáculos.
Um alarme pode lembrar você de caminhar.
Mas não pode fornecer motivação quando você está cansado.
Pode lembrar da consulta médica.
Mas não pode impedir que surja um compromisso inesperado.
O que isso significa para você?
Antes de concluir que sua memória está falhando, vale a pena fazer algumas perguntas:
Eu realmente esqueci?
Eu me lembrei, mas adiei?
A tarefa era importante para mim?
Eu tinha tempo suficiente?
Estava cansado ou desmotivado?
Surgiu alguma prioridade concorrente?
Essas perguntas ajudam a compreender melhor o que está acontecendo e permitem encontrar soluções mais eficazes.
Uma nova forma de olhar para os esquecimentos
Talvez a pergunta mais útil não seja:
"Por que eu esqueço tanto?"
Mas sim:
"Por que não consigo transformar minhas intenções em ações?"
A resposta pode revelar muito mais sobre sua organização, suas prioridades e seu funcionamento cognitivo do que simplesmente atribuir tudo à memória.
A boa notícia é que, quando identificamos a verdadeira origem das dificuldades, podemos desenvolver estratégias muito mais eficazes para lidar com elas.
E, muitas vezes, descobrimos que nossa memória está funcionando melhor do que imaginávamos.